segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
domingo, 16 de dezembro de 2012
XX
Há momentos da nossa vida em que ficamos suspensos. Teletransportados
para outro mundo, outra dimensão, quiçá outro universo, flutuamos nas ondas do
vácuo, ao som de uma música que vem de todo o lado e não nos questionamos o que
é, porque na verdade não sabemos o que somos e muito menos onde estamos.
Feitos
de matéria cósmica, nascidos de areia de galáxias com milhões, triliões de
átomos, coisas realmente pequenas que agora são pontinhos acesos que brilham à
nossa frente e que não lhes conseguimos tocar, viajamos. A nossa alma responde
ao ondular do vazio e torna-se ela própria o ser, a areia e a matéria, fundindo
aquilo que somos e vivemos com nada e assim ficamos neste estado de
inconsciência. Pairamos no desconhecido, deslizamos, nus de carne, nus de osso,
lentamente, num calmo passeio ao paraíso momentâneo, pai
de tudo e filho de nada, que se nos aparece azul, violeta, vermelho, nem sei
bem, mas é tão belo que a sua cor se desdobra em bondade e a bondade em
felicidade. Ali vivemos eternamente, longe do nosso casaco de pele, de veias e
artérias para sentir o que não se sente com olhos que não vêm. Não temos membros,
somos pó! Somos a nossa alma e só dela sabemos quem somos porque dela saímos.
O mundo, a terra, as pessoas? Saberão eles onde estamos? Saberão eles
que isto é o paraíso e somos pó e areia e alma despida de sofrimento e dor?
Deus, se tal coisa realmente existe, será isto. Será também nós, unidos
dentro deste vazio cósmico.
Começa a aparecer uma certa luz, mostrando o seu tom alvo, reluzente,
limpo. Como que se nos sugasse, viajamos à velocidade da luz e a Terra vai-se-nos
aparecendo à frente, em forma de berlinde, azul, tornando-se cada vez maior, cada
vez mais familiar e o vácuo começa a desvanecer-se e vamos sentindo agora os
dedos, os braços, as pernas, os olhos, o nariz e a boca. O sabor, a água, o
vento, o frio e calor são agora coisas e nós sentimo-las. Agora pensamos. Agora
sabemos realmente quem somos e de onde viemos. Estamos presos noutro mundo, num
mundo com infinitos acontecimentos e seres. A areia, o pó e a alma
materializam-se e os nossos olhos ficam abertos, quietos, atentos ao que se
passa.
Conseguimos regressar. Será que lá voltaremos?
Começa agora a debandada amnésica em busca do desconhecimento e vamos,
à medida que o mundo surge ao nosso olhar, esquecendo.
Deixamos de
acreditar em tais mundos pois agora tais mundos não existem.
Há mais coisas no mundo do que aquelas que nos saltam à vista.
Thibaut Ferreira
Lisboa, 16 de Dezembro de 2012
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
XII
Descansado,
recostado na cadeira de madeira, esperava assim que chovesse. Realmente, já não
chovia há bastante tempo: três quinze dias, mais coisa menos coisa.
Corria-se
pelo país inteiro, que faltava água: o gado, de tanto castanho seco,
esquecera-se do verde.
Por estes
lados, passava-se a mesma coisa. Eram as batatas que não se podiam pôr, era o
trigo que não crescia, era o pessoal que não tirava as t-shirts e os bombeiros,
entretanto, enchiam de água os reservatórios das populações.
Pesquisou
naqueles sites de meteorologia que
dizem o tempo à semana e constatou, efetivamente, que ia chuviscar no sábado.
Os sóis em
ponto pequeno que preenchiam a tabela da meteorologia do tal site, indicavam que
até sexta ia fazer sol todos os lindos dias. Era quarta. Até que não faltava
muito – pensou. Desligou a Internet e fitou a imagem de fundo do computador
durante alguns segundos, uma espécie de “estagnamento” cerebral. Olhou para a
janela e levantou-se. Foi à casa de banho e enxaguou a cara com água fresquinha
e deitou-se de seguida.
Por razões
incógnitas às pessoas que não estudam essas coisas, o cérebro não o deixou
dormir por uns tempos. Ficou a pensar. A pensar em coisas. Montes delas: a
chuva, o sol, a água, a cama, o cérebro, sei lá…
Adormeceu.
No dia a
seguir esqueceu-se do tempo e da água.
Foi
trabalhar e cansou-se. Chegou, comeu pão com queijo e foi para o quarto.
Era algo
tarde quando adormeceu. Começou a chover.
Thibaut
Ferreira
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
domingo, 2 de dezembro de 2012
XV
E ali estava, sentado.
A cadeira era confortável, apesar de estar com as “perninhas à chinês”.
Chovia como nunca tinha visto antes em Lisboa, não que eu já tenha
visto chover em Lisboa, mas chovia bem.
Lá longe na minha terra chove muito e isso é sinónimo de frio, de
camisolas, camisolões, casacos quentinhos, lareira, torradas e histórias.
É diferente aqui na capital, a água que chegou ainda demorou um
tempito, se bem que as estradas agora estão bem melhores.
Recém chegada, caía por favor, com o cansaço acumulado dos lados da
minha terra. Tem muitos altos e baixos a minha terra.
Estava a olhar pela janela, que meio embaciada pela humidade, via-lhe
correr gotinhas, fazendo crescer aquele desejo infantil de desenhar o nosso
nome com o indicador mesmo sabendo que se vai apagar dali a uns segundos.
As ruas estavam a ser bombardeadas por água. Como resposta escorriam-na
pela avenida abaixo, tipo chuto, que ao fim de algumas horas deveria chegar à
Baixa, ao Tejo e depois ao Atlântico, misturando a terra, o suor, as marcas dos
sapatos com o sal.
Ria-me. Era engraçado ver aquela água toda a cair, com todos aqueles
carros a passar em azáfama, quiçá para ir buscar os filhos à escola, quiçá
porque há azáfama todos os dias.
As pessoas molhavam-se completamente: ninguém esperava e portanto julgo
que a chuva se risse também, isto antes de se esmorrar contra a calçada ou
contra o alcatrão.
Fitei aquele espetáculo onde a ação recaía ou nos relâmpagos, que de
vez em quando apareciam tipo bobo da corte a dar a moral da história, ou na
chuva, que não se cansava de cair.
Quinze minutos ali estive.
Começava a ter formigueiro na perna direita e sentei-me direito.
Fiquei com a sensação de que este mundo é imprevisível, bem frio quando
é Inverno e que o formigueiro incomoda. Prefiro o Verão.
Não gosto lá muito de chuva, acho-a aborrecida, faz-me lembrar os “mais
velhos” sempre a dizer a mesma coisa,...
No entanto, faz crescer milhões de plantinhas, plantas maiores, arvoredos, árvores,
florestas, que por sua vez sustentam e ostentam milhões de seres vivos,
conseguindo manter a estabilidade de oxigénio nesta Terra em que são cada vez
mais a respirá-lo e menos a respeitá-lo.
Aparece quando é necessário, se bem que ultimamente tem demorado mais
que o previsto, mas aí, sabemos de quem é a culpa, porque Deus tem sido bondoso
e tem mandado as gotinhas sempre que pode.
Tudo a água nos pode dizer. Tudo a água nos pode mostrar.
Deixem-na vir, ainda que seja chatinha, assim sempre crescem as batatas
e os feijões e montes de outras coisas mais. Ainda que por muito egoístas,
arrogantes, simpáticos, pessimistas, humildes ou racistas que sejamos, a chuva
vai continuar a cair e se não tomarmos as devidas precauções, molhamo-nos, o que
é desagradável, ou pelo menos molha.
O melhor é serem simpáticos e otimistas porque quando a chuva vos cair
em cima, vocês irão rir-se e rir faz bem à saúde.
Thibaut Ferreira,
Lisboa, 25/09/2012
Gene therapy for blood disorder a 'success'
Gene therapy has been used for the
first time to treat an inherited blood disorder in what doctors say is a major
step forward.
A man given pioneering treatment to correct a faulty gene has made
"remarkable" progress, a US and French team has revealed.
Gene therapy is an experimental technique that manipulates genes in order to
treat disease.
The patient suffers from an inherited disorder which affects his body's ability to create red blood cells |
It has seen some successes, but also setbacks, including a patient's
death.
Beta thalassaemia is an inherited blood disorder that affects the body's
ability to create red blood cells.
The first gene therapy trial was in an 18-year-old man with a severe form of
the condition, who had been receiving regular blood transfusions since the age
of three.
Stem cells from his bone marrow were treated with a gene to correct for the
faulty one.
They were then transfused back into his body, where they gradually gave rise
to healthy red blood cells.
Three years after the treatment, which took place in 2007, the man remains
mildly anaemic, but no longer needs blood transfusions, doctors said.
The team, led by Philippe Leboulch, of Harvard Medical School in Boston,
said: "At present, approximately three years post-transplantation, the
biological and clinical evolution is remarkable and the patient's quality of
life is good."
But, reporting in the science journal Nature, the
doctors sounded a note of caution, saying there was a possibility that the
patient could be at risk of developing leukaemia in the future due to side
effects from the gene therapy.
Gene therapy has been used since the 1990s as a new approach to treating a
number of incurable conditions, including inherited disorders, some cancers, and
viral infections.
There have been some positive results, but in 1999 an 18-year-old US
volunteer, Jesse Gelsinger, died after the treatment.
And some children given gene therapy for the immune disorder "bubble baby"
syndrome have developed cancer.
Proof of
principle
Prof Adrian Thrasher, of University College London, has carried out gene
therapy on children with immune disorders.
He said the latest study was an encouraging proof of principle that gene
therapy could have genuine therapeutic effects in other blood disorders.
"The good news is that technology is advancing rapidly, and it shouldn't be
too long before diseases such as thalassaemia can be reliably and safely treated
in this way," he said.
Dr Derek Persons, of St Jude Children's Research Hospital in Memphis,
Tennessee, said the work was "a major step forward for the gene therapy of
haemoglobin disorder".
He said further trials were planned at several centres in the US, including
his own.
"This is very early days," he added. "The field will advance from people
doing different trials."
In BBC News
Seda de aranha pode criar homens à prova de bala
A artista holandesa Jalila Essaïdi criou um material super-resistente a partir da mistura de seda de aranha com pele humana. O tecido ajuda à regeneração da pele e dos ossos e é capaz de parar uma bala, a metade da sua velocidade normal.
O trabalho original de Essaïdi é um vídeo que mostra o tecido a ser testado com um tiro. A artista, em conjunto com o biólogo celular Abdoelwaheb El Ghalbzouri, descobriu o possível sucessor do Kevlar, uma fibra sintética utilizada, por exemplo, nos coletes à prova de bala. A nova técnica pode, ainda, ser aplicada na medicina.
"A seda da aranha é três vezes mais forte do que o Kevlar. Para os coletes à prova de bala são necessárias 33 camadas de Kevlar. Se utilizarmos mais camadas de seda de aranha, pode ser mais eficaz parar uma bala", disse El Ghalbzouri, à Reuters.
O biólogo e a artista vêm, no entanto, mais potencial na mistura de pele e de seda quando se trata do desenvolvimento de enxertos de pele em pacientes com queimaduras.
"As células humanas parecem aderir bem à seda da aranha, mas são necessárias mais pesquisas", disse, ainda, El Ghalbzouri. "A seda de aranha pode ser um bom apoio para a regeneração óssea, bem como de cartilagens, tendões e ligamentos", acrescentou.
Graças à sua força e elasticidade o tecido pode, também, ser utilizado no fabrico de pára-quedas.
In Público
(des)Consciência
Um turbilhão de ideias e nada para escrever... Escreva, então, sobre o nada. Este nada que me atinge e me faz preocupar sem saber realmente de que se trata. Será ele um aviso, um presságio, um problema da complexa e incompreendida consciência?
Ai, consciência, quem serás? O que fazes, de onde vens? Na minha ignorância, lembrei-me de que, talvez por uns instantes, pudesse ser inconsciente. Não queria experienciar esta dimensão de forma total, apenas numa fração que me permitisse aperceber unicamente das matérias sensoriais. As que só nos fazem tilintar os sentidos, nada mais!
É tão difícil ser-se consciente. É tao difícil não o ser...
Olho o cão e apercebo-me disso quando coça freneticamente a orelha e não se importa - nem a mínima ideia faz - do que será que lhe causa aquela imensa comichão. Apenas se coça. Ela passa e ele, coitado, volta ao vazio onde é feliz.
E acreditem, dentro da sua pequenez de racionalidade (se é que a tem) ele é feliz. Consigo perceber que gosta que lhe toquem, que gosta de sair de casa e anunciar ao vento a sua natureza - é puro e desapercebido mas está lá.
Nunca o canídeo sofrerá de amor, de desgosto, dos inconvenientes de estar desperto. Contudo, surgiu-me a ideia de que nunca o atingirão também as coisas boas de possuir tal bênção.
Tentei pensar em algumas. Nada surgiu. Com certeza serei eu que não atingi tal nirvana. Com certeza...
Ser consciente ou não o ser? Para min não são opostos, são apenas dois diferentes caminhos de se viver isto a que chamamos de vida, de passar um tempo num corpo emprestado, de esperar o último Fado...
Taurino, Novembro de 2012
Gato que brincas na rua
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Sou eu?
O que te diz a ti, antro pulsátil, sim tu que lês agora esta mixórdia escrita por um alguém distante que provavelmente nunca conhecerás, que não és uma borboleta? O mesmo lhe pergunto a ela: não será ela uma totalmente diferente partícula do nosso universo, pensando ser um inseto?
A ciência diz-nos para usar a experimentação apenas como recurso a uma prova sólida, concreta, matematicamente provada, daquelas em que partimos de um mais um e tomando isto e todos os passos em diante como verdadeiros e provados pelos anteriores. O facto de algo se verificar um milhão de vezes não significa que se verifique sempre.
Voltando ao assunto do mísero inseto (ou do mísero eu?), o que fará a pobre borboleta acreditar que a sua verdadeira morfologia é aquela que costuma ver ao espelho desde que se desvencilhou do modesto casulo? O que lhe garante que, da próxima vez que acordar, não constatará que tudo não passou de um sonho?
Um texto com demasiadas perguntas, sem nenhuma resposta. Envergar por este caminho de louco cepticismo é triste. Deixa-me triste. E se tudo não passa de um sonho? E se todas as paixões e todos os desamores e todas as dores e todas as mágoas que vivi, ou penso que vivi, não foram, de facto realidade? Ideias demasiado extensas para caberem no meu ser. Posso falar em ser? Posso! Um alguém um dia disse ''Penso logo existo'' e aqui reside a prova de que se tudo o que vivemos mesmo que num sonho foi vivido, então esse tudo acompanhar-nos-á enquanto pensarmos.
O cepticimso é a única coisa que nos resta, contudo enquanto sonho - ou vivo se quiserem acreditar que estão mesmo a ler isto - aproveitarei tudo o que me for imposto tendo sempre guardada e viva a noção de que poderei não estar ali.
Taurino, Novembro de 2012
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